‘Sou um milagre’: delegado baleado na megaoperação reconstrói emboscada, resgate sob tiros e perda da perna
28/10/2026
(Foto: Reprodução) Delegado baleado na megaoperação em 2025 relembra emboscada, resgate e perda da perna
Entre os becos estreitos da Vacaria, região do Complexo da Penha, o tempo passou a ser contado sob tiros e passos apressados. Baleado durante a Megaoperação Contenção, o delegado Bernardo Leal viu a vida escapando enquanto colegas tentavam carregá-lo para longe do fogo cruzado.
“Cara, estou morrendo, estou morrendo, não tenho mais força”, disse Bernardo a um dos policiais que o socorriam.
Ele sobreviveu, mas teve a perna direita amputada. Chegou ao hospital com apenas 3% de chance de sobreviver, recebeu 30 bolsas de sangue e passou por 9 cirurgias. Após 7 dias em coma, ao despertar no hospital, ainda não sabia a dimensão do que havia vivido.
📌Um ano da megaoperação: esta reportagem faz parte de uma série do g1 sobre os desdobramentos da ação realizada em 28 de outubro de 2025 nos complexos da Penha e do Alemão, com 122 mortos.
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Bernardo Leal
Patricia Teixeira/g1 Rio
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Nesta quarta-feira (28), a megaoperação dos Complexos da Penha e do Alemão completa 1 ano. Ao g1, o delegado Bernardo Leal revela os bastidores da ação considerada a mais letal da história, que resultou em 122 mortes — entre elas, a de 5 policiais.
Ao ouvir que havia sobrevivido, Bernardo passou a se perguntar por que teve uma 2ª chance enquanto colegas morreram. Hoje, diz acreditar que precisa usar a experiência para dar voz a policiais da linha de frente, pessoas com deficiência e moradores de comunidades dominadas pelo crime organizado.
Bernardo foi eleito para a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro pelo Partido Progressista (PP), com 57.254 votos.
“Estou vivo por um milagre divino, sou um milagre. Acho que Deus me deixou aqui para cumprir essa nova missão de ser voz, lutar pelas pessoas e para que as coisas mudem.”
Na entrevista, Bernardo percorre novamente as horas que antecederam o disparo, a tentativa de retirá-lo da área sob uma sequência de tiros e os obstáculos que se impuseram no caminho das equipes até os alvos.
Ele também contesta a interpretação de que a operação teria sido planejada para matar e defende que o enfrentamento ao crime organizado não pode se encerrar quando os policiais deixam o território.
“Nós vivemos, nesses lugares, verdadeiros cenários de guerra. A narrativa de que foi uma chacina a gente consegue confrontar com dados fáticos. Quem se entregou, a gente prendeu. Foram mais de 100 prisões. E os 117 mortos, pelo que foi apurado, estavam na mata. Não morreu nenhum inocente, tirando os 5 colegas policiais.”
Duas horas de caminhada até o alvo
Na véspera da operação, Bernardo conta que teve um dia de trabalho relativamente normal na Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE). A equipe se preparava para cumprir os mandados, mas com certo receio de encontrar resistência.
O tamanho da ação e a importância estratégica da região para o Comando Vermelho já anunciavam uma entrada difícil. Ainda assim, conta o delegado, a intensidade dos confrontos ultrapassou o que esperavam encontrar.
“A gente sabia que era o coração dessa facção criminosa, sabia que o terreno era difícil de operar. Mas o fator surpresa foi a resistência maior do que a que estávamos esperando.”
Bernardo entrou em campo por volta das 5h. A partir dali, foram mais de 2 horas de caminhada até a região da Vacaria, onde estava um dos alvos da equipe. Ao todo, segundo ele, o percurso até a área em que pretendiam cumprir as ordens judiciais chegou a 14 quilômetros.
O caminho era atravessado por barricadas, que dificultavam a passagem. Para Bernardo, a ausência de apoio federal também pesou no deslocamento. Na avaliação dele, o uso de blindados da Marinha teria permitido que as equipes avançassem com mais facilidade para o interior das comunidades.
O objetivo, afirma, era cumprir mandados expedidos pela Justiça depois de uma investigação. Eram 70 mandados de prisão e 180 de busca e apreensão, segundo o delegado.
“E como é que nós somos recebidos ao adentrar naquelas regiões que infelizmente são comandadas por um Estado paralelo? Nós somos recebidos com tiros de armas de guerra”, afirmou.
Ele sustenta que a atuação das equipes precisa ser compreendida levando em conta as dificuldades de acesso e os riscos enfrentados durante o cumprimento das ordens judiciais.
“O modus operandi desses criminosos, quando a polícia entra, é fugir para a mata e atirar nos policiais. Fomos cumprir mandados decorrentes de uma investigação. E nós fizemos o possível para que não tivesse dano colateral, protegendo a comunidade”, declarou.
Imagens mostram resgate de delegado em megaoperação no RJ
A emboscada e o tiro de fuzil
Bernardo relata que a equipe sabia onde ficava a casa de um chefe. O caminho, porém, era formado por becos estreitos, como em um labirinto, e alguns cobertos por tapumes, que dificultavam a circulação e a observação aérea.
Em determinado momento, os policiais chegaram a um beco coberto. Um integrante da equipe informou que havia se perdido do grupo e que acreditava que disparos ouvidos na hora vinham de policiais de outra equipe.
Como policiais civis e militares atuavam na operação, as forças de segurança haviam combinado uma senha e uma contrassenha para evitar tiros entre colegas. Segundo Bernardo, a equipe ouviu a resposta correta e acreditou que havia policiais do outro lado do beco.
“Eu falei: ‘Cara, a gente está tomando tiro da PM’”, contou.
Ele afirma que o homem que estava no fim do beco usava roupas semelhantes às das forças de segurança, incluindo roupas escuras e colete. Ao acreditar que se tratava de força amiga, Bernardo colocou a perna para fora do abrigo.
“Quando cantou a contrassenha, a gente acreditou que era força amiga e que não ia ter mais resistência. Quando eu coloco a perna para fora, um criminoso mirou o fuzil 762 e disparou uma rajada. Eu tomei um tirou e caí no meio da linha de fogo.”
Ao lado dele estava Vinícius, comissário de polícia que trabalhava em sua equipe. Quando Bernardo caiu, o colega derrubou uma motocicleta para usá-la como escudo e proteção contra os disparos. Segundo o delegado, diversos tiros atingiram a moto na ocasião.
A reação de Bernardo foi tentar responder aos disparos. Logo depois, percebeu que estava perdendo muito sangue.
“Comecei a sentir meu corpo muito quente por baixo. Tentei andar para trás para me defender, mas era muito tiro. O tiro não parava em nenhum momento, até que outros colegas, arriscando suas próprias vidas, conseguem me puxar e me colocar dentro de uma casa.”
Mesmo ferido, Bernardo diz que se preocupou com os moradores e com os colegas. Ao entrar na residência, pediu desculpas aos moradores pela forma como a equipe precisou chegar ao local. Também se desculpou com os policiais por sentir que os havia exposto ao perigo.
Resgate sob tiros e motocicleta
A retirada do delegado se transformou em uma operação dentro da própria operação. Segundo ele, o grupo não conseguia voltar pelo caminho por onde havia entrado porque os disparos continuavam.
A comunicação com a base também era difícil. Bernardo afirma que os policiais enfrentaram interferências no sinal de comunicação e só conseguiram estabelecer contato depois de encontrar uma conexão Wi-Fi. A equipe, então, pediu prioridade para o resgate.
Em determinado momento, os policiais perceberam que havia uma parede nos fundos da casa sem outra construção atrás. Um dos integrantes usou um botijão de gás para quebrá-la, criando uma saída.
"Eu me lembro deles me botando em uma madeira, acho que era uma prateleira da casa da moradora. Quando me tiraram da casa, achei que fosse ser atingido de novo, porque era muito tiro. Eu falei: 'Meu irmão, vou morrer agora!"
Policiais durante o resgate do delegado Bernardo Leal
Reprodução
Os policiais precisaram carregá-lo por uma parte da viela até chegar à rua principal. No caminho, Bernardo recebeu ajuda de diferentes integrantes das forças de segurança. Entre eles estava o sargento Figueiredo, da Polícia Militar. Ao perceber que ele continuava sangrando, o militar fez outro torniquete para conter a hemorragia. “Começou uma nova saga para me tirar dali.”
Sem encontrar outra maneira de sair, um policial localizou uma motocicleta roubada que havia sido deixada na comunidade. Bernardo foi colocado no veículo, entre 2 agentes, e levado em direção à saída.
A lembrança desse percurso ainda emociona o delegado.
Ele calcula que já havia se passado cerca de 40 minutos desde que havia sido baleado e que sentia não ter mais forças para continuar.
“Eu falei: ‘Cara, estou morrendo, estou morrendo, não tenho mais força’. ‘Doutor, calma, espera mais um pouco. A gente está conseguindo’”, contou, ao reproduzir a conversa com um dos policiais que o seguravam na motocicleta.
Bernardo diz que se emociona ao relembrar ação dos policiais que salvaram sua vida
Reprodução
O resgate deixou em Bernardo uma dívida de gratidão que ele diz não conseguir medir. “Ali, senti que não tinha mais força para sobreviver. Mas o ato de heroísmo de quem me salvou me deu força. Eles poderiam ter morrido. A eles, toda a minha gratidão.”
A equipe conseguiu chegar à 1ª barricada e colocá-lo em uma viatura, que o levou ao Hospital Estadual Getúlio Vargas, na Penha.
Bernardo atribui aos profissionais da unidade a preservação de sua vida. Ele afirma que a equipe médica tinha experiência no atendimento a pacientes que chegam com ferimentos graves por arma de fogo.
Sete dias depois, a notícia da amputação
Depois de ser atendido no Getúlio Vargas, Bernardo foi transferido para o Hospital Samaritano. Ele só despertou 7 dias depois do ferimento.
Ao acordar, ainda fraco, não sabia a dimensão que a operação havia tomado. As pessoas que o visitavam repetiam que ele havia sobrevivido por um milagre.
Quando os médicos lhe explicaram que haviam conseguido salvar sua vida, mas não a perna direita, ele revelou que não pensou em reclamar.
“Eu sabia que eu não podia reclamar de nada. Eu tinha que agradecer por estar vivo”, afirmou.
A amputação foi feita inicialmente abaixo do joelho, mas o tratamento não terminou ali. Bernardo passou por outras 9 cirurgias, segundo seu relato, com amputações adicionais e uma infecção óssea que descreveu como complicada.
Ele passou 47 dias internado. Após receber alta, iniciou o processo de reabilitação e adaptação a uma prótese. Bernardo diz ter saído do hospital ainda magro e com problemas decorrentes da infecção. Apesar das dificuldades, afirma que sua principal lembrança é a dos colegas que arriscaram a própria vida para retirá-lo do local.
“Devo a minha vida a eles”, disse.
Delegado Bernardo Leal ficou afastado internado 47 dias e voltou ao trabalho depois de três meses sob aplausos
Reprodução/TV Globo
O delegado faz questão de dizer que sabia dos riscos quando saiu de casa. Revelou, ainda, que voltaria a participar de uma operação por acreditar na importância do trabalho policial.
“Estava lá para cumprir a minha missão, nunca me vitimizei nem quero me vitimizar. Sabia dos riscos e iria de novo, porque esse é um trabalho essencial. A única tristeza que tenho é que a gente entra, faz a operação, e não consegue permanecer, retomar o território.”
‘Ninguém sai de casa pensando em quantas pessoas vai matar’
Bernardo também rejeita a ideia de que a operação tenha sido planejada com o objetivo de provocar mortes. Para ele, a missão dos policiais era cumprir os mandados judiciais e voltar para casa vivos.
“Eu participei de algumas operações na vida. Ninguém acorda às 3h para um briefing de operação pensando em quantas pessoas vai matar. Ninguém sai de casa pensando nisso. O cara quer ir lá, cumprir a missão e voltar com vida. Todo policial que sai de casa tem uma família. Ele sai de casa pensando que pode morrer e quem vai cuidar dos filhos dele”, afirmou.
Segundo o delegado, não havia uma ordem para matar. Ele diz que os agentes foram ao local para prender suspeitos e apreender provas, mas encontraram resistência armada.
Ele também sustenta que a operação foi planejada para evitar vítimas que não estivessem envolvidas nos confrontos. Segundo Bernardo, não houve mortes de pessoas que ele classificou como vítimas colaterais.
Para o delegado, as mortes dos colegas impedem que a ação seja considerada plenamente exitosa.
“Uma operação em que há morte de colegas, infelizmente, ela não é 100% exitosa”, afirmou.
Para o delegado, presença do Estado não pode se resumir à polícia. Ao falar sobre o que considera necessário para enfrentar o crime organizado, Bernardo defende que o Estado permaneça nas comunidades depois das operações.
Na avaliação dele, a entrada das forças de segurança é necessária para retomar o controle territorial, mas não resolve, sozinha, os problemas que permitem a permanência de grupos criminosos.
Ele cita a falta de saneamento, de assistência social, de serviços públicos e de políticas voltadas às famílias como questões que precisam ser enfrentadas.
O delegado relata que, durante operações, encontrou situações de crianças fora da escola e mães adolescentes com vários filhos, sem que outros representantes do poder público tivessem procurado conhecer suas necessidades.
“Política de segurança pública não se faz só para a polícia. Política de segurança pública se faz com uma atuação multidisciplinar”, disse.
Na avaliação dele, o planejamento deve envolver áreas como saúde, assistência social, Defensoria Pública e Judiciário, além das forças de segurança.
Bernardo também critica a dificuldade de cumprir decisões judiciais em áreas consideradas de risco. Segundo ele, quando oficiais de Justiça não conseguem executar as ordens, os criminosos acabam impondo as próprias regras nesses territórios.
A falta de continuidade, afirma, é um dos principais problemas das ações de segurança. O delegado defende ainda uma atuação conjunta entre os governos federal, estadual e municipal.
“A falta de integração prejudica as operações e dificulta a prisão de lideranças que atuam em áreas de acesso complicado. O enfrentamento ao crime organizado exige planejamento de longo prazo, ocupação territorial e serviços públicos capazes de permanecer depois da saída das equipes policiais.”
Experiência que mudou sua trajetória
Quando acordou no hospital, Bernardo diz que começou a se perguntar por que havia sobrevivido enquanto outros policiais gravemente feridos morreram. A resposta que encontrou, segundo ele, está ligada à ideia de uma nova missão.
O delegado afirma que pretende dar visibilidade aos profissionais que atuam na linha de frente, às pessoas com deficiência e aos moradores de comunidades que, segundo ele, sofrem com extorsões e restrições impostas por criminosos.
“A gente tem que abrir mão das nossas vaidades e mostrar para a sociedade que há esperanças. O recado a ser dado não é com mortes, é com a ocupação do território. As pessoas estão ali, subjugadas, sofrendo. Acho que essas pessoas não são ouvidas. Então agora eu vou estar lá, cobrando por elas também.”
Bernardo contou que começou a se adaptar à prótese biônica dada pelo governo RJ
Reprodução
A experiência também mudou sua relação com a própria condição física. Bernardo contou que começou a se adaptar a uma prótese biônica dada pelo governo do Rio de Janeiro, que, segundo ele, facilita bastante a caminhada.
Ele diz que a adaptação pode devolver parte da autonomia perdida após a amputação, inclusive em tarefas cotidianas, como pegar um copo de água ou um prato de comida enquanto usa muletas.
"Você não tem a perna, mas com a muleta você também não tem as mãos. Então acho que a prótese vai me dar mais dignidade, mais qualidade de vida.”
Bernardo afirma que não tem rancor nem vontade de vingança contra o criminoso que o alvejou. O delegado diz que seu objetivo é apenas representar a sociedade.
“Conseguimos mostrar que o policial também sangra e que ele coloca sua vida em risco o tempo inteiro. Criam histórias de que somos opressores, algozes. E muitos moradores das comunidades estiveram do nosso lado. Então eu acho que esse foi um ponto de inflexão.”